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Conduta da Indústria

Uma falsa escolha entre acessibilidade e inovação. Illinois deve agir para reduzir os custos dos medicamentos

(A False Choice Between Affordability and Innovation. Illinois Should Take Action to Lower Drug Costs)
Public Citizen, 20 de marzo de 2026
https://www.citizen.org/article/false-choice-between-affordability-and-innovation/
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ética, 2026; 4 (3)

Tags: controle de preços de medicamentos; negociação de preços do Medicare; recompra de ações pela indústria farmacêutica; fatores que contribuem para o aumento dos preços dos medicamentos

O estado de Illinois está analisando uma proposta legislativa para enfrentar o impacto dos altos preços dos medicamentos sujeitos à prescrição. Os projetos de lei HB 1443 [1] / SB 66 [2] preveem a criação de um Conselho de Acessibilidade de Medicamentos (Prescription Drug Affordability Board – PDAB), responsável por analisar preços excessivos de medicamentos e estabelecer limites máximos de pagamento para ajudar a conter os custos. A proposta de Illinois baseia-se no sucesso do Programa Federal de Negociação de Preços de Medicamentos do Medicare, adotando, em todo o estado, os preços negociados pelo Medicare como limites máximos de pagamento.

A indústria farmacêutica costuma se opor às iniciativas destinadas a reduzir o custo dos medicamentos prescritos, alegando que tornar os medicamentos mais acessíveis comprometeria a capacidade de investir em pesquisa e desenvolvimento de novos tratamentos. Na realidade, as empresas farmacêuticas não definem os preços com base nos custos de pesquisa e desenvolvimento [3]; Em vez disso, protegidas por monopólios garantidos por patentes e outros mecanismos de exclusividade, estabelecem os preços de acordo com o que o mercado está disposto a pagar [4], obtendo elevados lucros nesse processo [5].

As empresas farmacêuticas destinam bilhões de dólares ao enriquecimento de seus acionistas, por meio da recompra de ações e do pagamento de dividendos, em vez de investir no desenvolvimento de novos tratamentos [6]. Nos últimos quatro anos (2022–2025), as 15 empresas de capital aberto cujos medicamentos foram selecionados para a primeira e a segunda rodada das negociações de preços do Medicare gastaram, em conjunto, US$ 4,4 bilhões a mais em recompras de ações e dividendos do que em pesquisa e desenvolvimento (Tabela 1 e Figura 1).

Em cada um dos anos desse período, essas empresas, coletivamente, gastaram mais — ou praticamente o mesmo valor — com recompras de ações e dividendos do que com pesquisa e desenvolvimento. Cabe destacar que cerca da metade dos medicamentos (12 de 25) cujos preços já foram negociados pelo Medicare figuravam entre os 25 medicamentos de maior gasto dos planos estaduais de saúde de Illinois, que oferecem cobertura a servidores públicos e aposentados. Segundo dados obtidos por meio de um pedido com base na Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act – FOIA), esses 12 medicamentos representaram quase US$ 1 bilhão em despesas dos planos estaduais de saúde entre os anos fiscais de 2024 e 2025 [7]

Análise da Public Citizen com base nos registros das empresas junto à SEC e em relatórios financeiros equivalentes;[3] dados de Illinois obtidos pela Citizen Action/Illinois por meio de um pedido com base na Lei de Liberdade de Informação (FOIA) ao Departamento de Serviços de Gestão Central de Illinois (Illinois Department of Central Management Services) referentes aos gastos com medicamentos sujeitos à prescrição dos planos de saúde estaduais. Os dados obtidos via FOIA podem não representar um levantamento exaustivo de todos os custos com medicamentos dos planos estaduais de saúde. Os valores podem não corresponder exatamente ao total apresentado devido a arredondamentos.

Da mesma forma, em 2025, as 10 maiores empresas farmacêuticas destinaram US$ 84 bilhões à remuneração dos acionistas e obtiveram US$ 131 bilhões em lucros, enquanto investiram US$ 109 bilhões em pesquisa e desenvolvimento.

As empresas cujos medicamentos tiveram preços negociados nas duas primeiras rodadas do programa de negociação do Medicare também destinam mais recursos a repasses financeiros aos acionistas do que outras empresas. Com base na comparação da média dos repasses aos acionistas (recompra de ações e pagamento de dividendos), essas empresas distribuem quase três vezes mais recursos aos acionistas do que as demais empresas de capital aberto que compõem o índice S&P 500 (Figura 2).

Figura 1. Gasto total com remuneração aos acionistas versus pesquisa e desenvolvimento entre empresas cujos medicamentos foram selecionados para a primeira e a segunda rodada das negociações de preços do Medicare, 2022–2025
Figura 2. Distribuição média aos acionistas entre empresas cujos medicamentos foram selecionados para a primeira e a segunda rodada das negociações de preços do Medicare em comparação com as demais empresas do índice S&P 500.

Análise da Public Citizen com base nos registros das empresas junto à SEC e em relatórios financeiros equivalentes referentes aos medicamentos selecionados pelo Medicare (apenas primeira e segunda rodadas), 2022–2025, e análise de Twomey et al. (2026) das empresas que compõem o índice S&P 500 (excluindo empresas biofarmacêuticas, de serviços financeiros e fundos de investimento imobiliário), 2019–2023. O objetivo é ilustrar a ampla diferença na média dos repasses aos acionistas entre determinadas empresas farmacêuticas e as demais empresas do S&P 500, não se tratando de uma comparação direta, uma vez que os dados foram obtidos em períodos ligeiramente diferentes.

Os preços excessivos dos medicamentos tornam-se ainda mais graves quando se considera que praticamente todos os novos medicamentos se beneficiam de investimentos financiados pelos contribuintes. Esses investimentos frequentemente se concentram em pesquisas fundamentais sobre alvos biológicos para a ação dos medicamentos, que servem de base para o desenvolvimento de novos fármacos, reduzindo os riscos das etapas críticas de pesquisa e desenvolvimento [11].

Os medicamentos selecionados para a primeira rodada das negociações de preços do Medicare foram beneficiados, em conjunto, por US$ 12 bilhões em financiamento dos National Institutes of Health (NIH) [12] — variando de US$ 4,5 milhões para a insulina asparte a US$ 6,48 bilhões para o ustecinumabe — destinados tanto à pesquisa básica sobre os alvos terapêuticos quanto à pesquisa aplicada realizada antes da aprovação desses medicamentos pela FDA.[13]

As empresas farmacêuticas comercializam os mesmos medicamentos por preços muito inferiores em países comparáveis e, ainda assim, obtêm lucro. Reduzir os preços dos medicamentos, como fez o governo federal por meio do programa de negociação de preços do Medicare e como propõe o estado de Illinois ao criar um Conselho de Acessibilidade de Medicamentos (PDAB), permitirá conter os custos sem comprometer a elevada rentabilidade das empresas farmacêuticas.

Antes das negociações, os preços líquidos estimados nos Estados Unidos para os medicamentos selecionados na primeira rodada eram, em média, mais de quatro vezes superiores aos praticados em países comparáveis [14] e [15]. Mesmo após as negociações do Medicare, os preços desses medicamentos continuam mais elevados do que os observados em outros países [16].

A indústria farmacêutica apresenta uma falsa dicotomia entre tornar os medicamentos mais acessíveis e prejudicar a inovação. Na realidade, as empresas farmacêuticas utilizam os monopólios concedidos pelo governo para definir preços que maximizam suas receitas, sendo possível reduzir significativamente esses preços sem comprometer a inovação.

As negociações de preços conduzidas pelo Medicare já demonstraram isso em âmbito federal: as projeções indicam que o programa resultará em apenas 0,01% menos novos medicamentos ao longo de 30 anos [17], ao mesmo tempo em que proporcionará uma economia de bilhões de dólares para pacientes e contribuintes durante esse período.

A proposta de criação de um PDAB em Illinois pode ampliar os benefícios das negociações do Medicare para os 81% dos habitantes do estado que não são beneficiários do programa [18], além de reduzir os custos de medicamentos considerados um desafio para a acessibilidade e cujos preços ainda não tenham sido negociados pelo Medicare. Illinois deve aprovar essa legislação para ajudar a garantir que as empresas farmacêuticas não coloquem seus lucros acima das necessidades dos cidadãos que enfrentam dificuldades para adquirir seus medicamentos.

Referências

  1. HB1443 – 104th General Assembly https://www.ilga.gov/Legislation/BillStatus/FullText?GAID=18&DocNum=1443&DocTypeID=HB&LegId=157490&SessionID=114
  2. SB0066 – 104th General Assembly https://www.ilga.gov/Legislation/BillStatus/FullText?GAID=18&DocNum=66&DocTypeID=SB&LegId=157171&SessionID=114
  3. Wouters OJ, Berenbrok LA, He M, Li Y, Hernandez I. Association of Research and Development Investments with Treatment Costs for New Drugs Approved from 2009 to 2018. JAMA Netw Open. 2022;5(9):e2218623. doi:10.1001/jamanetworkopen.2022.18623
  4. Kesselheim AS, Avorn J, Sarpatwari A. The high cost of prescription drugs in the United States: Origins and prospects for reform. JAMA. 2016;316(8):858–871. doi:10.1001/jama.2016.11237
  5. Ledley FD, McCoy SS, Vaughan G, Cleary EG. Profitability of large pharmaceutical companies compared with other large public companies. JAMA. 2020;323(9):834–843. doi:10.1001/jama.2020.0442
  6. Stock buybacks are a practice where a company repurchases shares, thereby inflating stock prices and enriching shareholders and executives often paid in stock. Dividends are another way publicly traded companies return cash to investors.
  7. Illinois data were obtained by Citizen Action/Illinois via a FOIA request to the Illinois Department of Central Management Service regarding prescription drug spending data for state health plans. Illinois state health plans spent $912.8 million between FY24 and FY25 on the twelve drugs that were both within the top 25 highest spend drugs, by ‘plan paid amount,’ across several state health plans over the two-year period and for which Medicare has negotiated prices over the first two rounds of the price negotiation program (Ozempic/Wegovy, Eliquis, Jardiance, Stelara, Xarelto, Enbrel, Xtandi, Farxiga, Entresto, Trelegy, Januvia, Otezla).
  8. For companies with multiple business segments, direct or general research and development expenses reported for their pharmaceutical segment was used. Boehringer Ingelheim was excluded from this analysis as it is a privately held company. All company figures represent full year financial reporting except for Astellas for FY2025 because it had not reported full year results at the time of writing.
  9. Protect our care. Greed Watch: Drug Company Profits Skyrocket as Trump cuts back room deals that screw over working families. 12 de febrero de 2026. https://www.protectourcare.org/greed-watch-drug-company-profits-skyrocket-as-trump-cuts-back-room-deals-that-screw-over-working-families/
  10. Twomey J, Kersten L, Zhou EW, Ledley FD. Contribution of revenue from drugs subject to price negotiation under the Inflation Reduction Act to the revenue, profit, and returns of pharmaceutical manufacturers. Drug Discov Today, enero de 2026; 31(1):104585. doi: 10.1016/j.drudis.2025.104585. Epub, 12 de diciembre de 2025. PMID: 41391537.
  11. Cleary Ekaterina, Jackson Matthew J. y Ledley, Fred, Government as the first investor in biopharmaceutical innovation: Evidence from new drug approvals 2010–2019 (5 de agosto de 2020). Institute for New Economic Thinking Working Paper Series No. 133 https://doi.org/10.36687/inetwp133. Accesible en SSRN: https://ssrn.com/abstract=3731819
  12. Edward W. Zhou, Paula G. Chaves da Silva, Debbie Quijada, y Fred D. Ledley. Considering returns on Federal Investment in the negotiated “Maximum Fair Price” of drugs under the Inflation Reduction Act: an analysis. Institute of New Economic Thinking, Working Paper No. 219, 28 de febrero de 2024. https://www.ineteconomics.org/uploads/papers/WP_219-Federal-spending-on-drugs-Ledley-et-al-final.pdf
  13. Zhou et al. Identified PubMed publications related to the drug target or drug and subsequently identified NIH grants associated with the publications. Basic research funding was totaled through the date of approval of a first-in-class product associated with that target (basic science funding for drugs with a common biological target is counted once).
  14. Wouters OJ, Sullivan SD, Cousin EM, Gabriel N, Papanicolas I, Hernandez I. Drug prices negotiated by Medicare vs US Net prices and prices in other countries. JAMA. 2025;333(1):85–87. doi:10.1001/jama.2024.22582
  15. Wouters et al. Estimated 2021 net prices before negotiation and calculated the mean ratio of non-US prices to the estimated US net prices.
  16. Delaney Tevis, Matt McGough, Juliette Cubanski, and Cynthia Cox. How Medicare negotiated drug prices compare to other countries. KFF, 19 de diciembre de 2024. https://www.kff.org/health-costs/how-medicare-negotiated-drug-prices-compare-to-other-countries/
  17. Congressional Budget Office. Additional information about drug price negotiation and CBO’s simulation model of drug development, 21 de diciembre de 2023 https://www.cbo.gov/system/files/2023-12/59792-Letter.pdf
  18. KFF Medicare Beneficiaries as a percent of total population, 2024 https://www.kff.org/medicare/state-indicator/medicare-beneficiaries-as-of-total-pop/
creado el 28 de Julio de 2026