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Ensaios Clínicos e Ética

EUA: Testemunhos do cerco à comunidade científica após a paralisação de ensaios financiados pelo NIH

Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2026; 4 (1)

Tags: experimentação biomédica, ética em ensaios clínicos, violação de direitos humanos, financiamento de ensaios clínicos, censura da ciência

Desde o início de 2025, o governo Trump desencadeou uma crise sem precedentes entre os envolvidos em pesquisas clínicas financiadas pelo NIH, com mais de 5.100 subvenções canceladas ou congeladas, totalizando cerca de US$ 4,5 bilhões, afetando a execução de ao menos 148 ensaios clínicos em áreas como HIV, demência, nefropatias, câncer pediátrico e cuidados paliativos; e 138.000 pacientes afetados.

Os cortes súbitos, as revisões ideológicas das subvenções e as consequentes ordens executivas de suspensão ou cancelamento de protocolos relacionados ao estudo da iniquidade, da “diversidade étnica e de gênero”, dos direitos reprodutivos e de projetos de cooperação internacional que favorecem a saúde da mulher paralisaram pesquisas críticas, frearam o recrutamento de participantes em ensaios clínicos, interromperam tratamentos em curso e lançaram equipes inteiras em um limbo administrativo que deteriora a confiança na ciência e coloca em risco a saúde física e mental das pessoas envolvidas.

A falta de resposta do NIH agrava a sensação de instabilidade e, o que é mais preocupante, diversos pesquisadores assinalam que essa situação está corroendo um princípio fundamental dos debates científicos, ao restringir a formulação de perguntas de pesquisa que envolvem, por exemplo, grupos populacionais que não são de interesse para o atual governo dos EUA. A crise atual levou à paralisia institucional e à autocensura de muitos pesquisadores, por temor de serem mal interpretados, por receio de sofrer sanções ou por medo de colocar em risco seu financiamento.

As taxas de sucesso para obter financiamento caíram para apenas uma em cada 25 solicitações, o nível mais baixo em décadas, enquanto programas históricos como o PBTC (Pediatric Brain Tumor Consortium), a USAID (United States Agency for International Development) e várias redes globais do NCI (National Cancer Institute) estão sendo fragmentados ou reduzidos, colocando em risco tanto a continuidade de múltiplas pesquisas nacionais e internacionais essenciais quanto a formação de novas gerações de cientistas; além de resultar na perda de pessoal com ampla trajetória científica.

A Nature Medicine entrevistou seis cientistas que descreveram como a incerteza atual desacelerou a pesquisa clínica quase até paralisá-la, obrigando alguns a trabalhar de forma voluntária para sustentar seus projetos [1].

O Dr. Roger Shapiro pesquisa HIV pediátrico em Botsuana. O cancelamento súbito de sete subvenções do NIH desmantelou, em um único dia, duas décadas investidas na construção do Botswana Harvard Health Partnership. Seus ensaios, incluindo um que investigava uma possível cura para crianças com HIV, ficaram à beira do colapso. Shapiro conseguiu manter temporariamente o tratamento dos participantes usando recursos provisórios, mas o programa agora opera com cortes de 20% no pessoal e infraestrutura precária. Shapiro afirma que suspender esses ensaios em países com alta prevalência de HIV/AIDS é “míope e contraproducente”.

O Consórcio NIDDK (National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Disease) estuda doença renal em minorias. Quatro ensaios clínicos prontos para iniciar permaneceram suspensos por seis meses devido ao atraso na Notificação de Concessão (Notice of Award). Quando as notificações finalmente chegaram, o NIH ordenou o cancelamento das subvenções que meses antes haviam sido restabelecidas por decisão judicial, porque, naquele momento, os centros já não dispunham da infraestrutura exigida; alguns haviam demitido pessoal, em outros casos haviam expirado prazos de diversos documentos, e parte do financiamento já era irrecuperável. Os pesquisadores descrevem dano irreversível e desperdício inaceitável de recursos.

O Dr. Charles DeCarli lidera um ensaio nacional sobre demência. Seu grande ensaio, de US$ 53 milhões, foi interrompido por uma ordem executiva que obrigou a revisar projetos com palavras como “diversidade”. Embora tenha conseguido reverter o cancelamento por meio de um recurso de 41 páginas, o estudo perdeu dezenas de participantes, um centro de pesquisa fechou e o impacto sobre a confiança foi profundo. DeCarli admite ter trabalhado em “modo sobrevivência” e adverte que a autocensura está sufocando a criatividade científica.

A Dra. Ophira Ginsburg atuava como assessora em oncologia global para o NCI e em uma Comissão da Lancet sobre mulheres, poder e câncer. Uma proibição repentina de comunicações externas e restrições de viagem a impediram de continuar seu trabalho global em câncer, o que a levou a renunciar, apesar de considerar seu trabalho como “o privilégio da minha vida”. Agora, trabalha temporariamente na Europa, sem certeza sobre seu futuro. Ela afirma que o NCI (historicamente o maior financiador global em câncer) está perdendo a capacidade de sustentar redes, que são críticas para a pesquisa e para a formação de novos cientistas em oncologia.

O Consórcio de Tumores Cerebrais Pediátricos, com trajetória de mais de 60 ensaios precoces para doenças malignas do sistema nervoso central em crianças sem alternativas terapêuticas, perdeu seu financiamento histórico de US$ 4 milhões anuais. Famílias estão sendo recusadas e as crianças não podem participar de ensaios para doenças sem alternativas de tratamento. O NCI redireciona recursos para outra rede, mas a transição pode atrasar em um ano o acesso, o que, para esses pacientes, equivale a perder a janela terapêutica — ou a vida.

A Dra. Elizabeth Dzeng é pesquisadora na área de cuidados paliativos e reside nos EUA. Sua carreira ficou à deriva porque perdeu pessoal de sua equipe e pelo caos laboral resultante da angústia que assola pesquisadores que vivem nos EUA com vistos de estudo e temem ser deportados. Embora sua bolsa tenha sido restabelecida, a incerteza a levou a interromper atividades com participantes e a considerar seriamente deixar o meio acadêmico. Ela menciona que uma geração inteira de jovens pesquisadores pode se perder.

Fonte original:
Guenot, M. The damage done. Nat Med 31, 3211–3215 (2025). https://doi.org/10.1038/s41591-025-03994-z

creado el 9 de Febrero de 2026