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Gestão de Ensaios Clínicos, Metodologia, Custos e Conflitos de Interesse

O excesso de confiança da equipe de pesquisa favorece erros evitáveis nos ensaios

Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2026; 4 (1)

Tags: armadilha da confiança, erros evitáveis em ensaios clínicos, calibrar a confiança

A confiança excessiva tornou-se uma ameaça comportamental persistente nos ensaios clínicos. Embora uma equipe confiante possa acelerar o início de um ensaio, essa mesma confiança pode ocultar lacunas de compreensão que geram erros custosos. Segundo McGowan, acreditar que sabemos mais do que realmente entendemos é a chamada armadilha da confiança, um fenômeno especialmente perigoso em ambientes regulados e de alta complexidade, como a pesquisa clínica [1].

Os múltiplos desvios de protocolos de pesquisa, as falhas no consentimento informado e as inconsistências nos dados geralmente não se originam da ignorância, mas de uma confiança excessiva ou mal fundamentada. Familiaridade não é o mesmo que competência. A desconexão entre sentir-se pronto e estar de fato preparado acaba se materializando em erros sistemáticos [1].

McGowan explica que a ciência cognitiva descreve esse fenômeno há décadas. O efeito Dunning-Kruger ajuda a entender por que pessoas com compreensão parcial tendem a superestimar suas capacidades. Como a capacitação inicial oferecida antes do início de um ensaio raramente é reforçada ou avaliada, o excesso de confiança persiste sem correções.

Segundo o autor, uma abordagem para reduzir essa lacuna poderia focar no redesenho do treinamento sob o princípio central de calibrar a confiança. Mais do que confirmar que o treinamento foi concluído, deve-se medir se o aprendizado necessário foi realmente adquirido e se esses conhecimentos-chave podem ser aplicados em condições realistas.

A medição da aprendizagem exige avaliações que considerem não apenas a resposta correta, mas também o nível de certeza com que cada decisão é tomada, porque testes de múltipla escolha, por exemplo, não explicam como o protocolo seria aplicado em um cenário real. Exercícios reflexivos complementares são estratégias que ativam o processamento profundo e tornam visível aquilo que se acreditou ter aprendido, mas não foi. Avaliações baseadas na confiança permitem identificar a “falsa certeza” para prever erros futuros [1].

Entre a ativação do ensaio clínico e o recrutamento do primeiro participante, costuma ocorrer um desgaste cognitivo na ausência de reforços; por isso, a aprendizagem não deveria parar após o início do estudo. Tecnologias atuais, como lembretes automatizados, painéis de acompanhamento ou questionários personalizados, facilitam um monitoramento contínuo a baixo custo.

A cultura de aprendizagem em um ensaio clínico deve valorizar a precisão acima da celeridade para assegurar centros de pesquisa realmente preparados. Normalizar a incerteza, estimular a humildade intelectual e apresentar o re-treinamento como uma prática preventiva — e não punitiva — transforma a relação da equipe com o aprendizado contínuo. Quando um pesquisador se sente autorizado a dizer “não tenho certeza, vamos verificar”, ele protege a qualidade do estudo [1].

O autor conclui afirmando que o objetivo é garantir que exista uma preparação real de toda a equipe. Em um campo no qual cada decisão pode afetar a validade científica e a segurança do paciente, a aprendizagem efetiva e a compreensão profunda são uma responsabilidade ética e operacional.

Fonte Original:
McGowan, B. The Confidence Trap in Clinical Trials: When Knowing Just Enough Becomes Dangerous. Applied Clinical Trials 2025; 34(4). https://www.appliedclinicaltrialsonline.com/view/the-confidence-trap-in-clinical-trials-when-knowing-just-enough-becomes-dangerous

creado el 9 de Febrero de 2026