Salud y Fármacos is an international non-profit organization that promotes access and the appropriate use of pharmaceuticals among the Spanish-speaking population.

Publicidade e Promoção

Publicidade farmacêutica nos EUA: respostas às principais perguntas. A ordem do governo e o que realmente pode ser feito

(Pharmaceutical ads in the U.S.: Top questions answered. The Administration’s order and what can actually be done)
Katelyn Jetelina, Aaron Kesselheim
Your Local Epidemiologist, 10 de setembro de 2025
https://yourlocalepidemiologist.substack.com/p/pharmaceutical-ads-in-the-us-top
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ética 2026 4(1)

Tags: história da propaganda dirigida ao consumidor nos EUA; dificuldades para regular a propaganda dirigida ao consumidor; proibir a propaganda dirigida ao consumidor

Os anúncios farmacêuticos nos Estados Unidos são irritantes. Absurdos. E quase exclusivamente americanos.

Na verdade, apenas um outro país de alta renda em todo o mundo — a Nova Zelândia — permite que os laboratórios de medicamentos de prescrição anunciem diretamente aos consumidores. Todos os outros decidiram que as desvantagens não valem a pena. Então, por que os EUA não os proibiram?

Desde o início, RFK Jr. definiu a eliminação dos anúncios farmacêuticos como um de seus objetivos. E, acredite ou não, concordo com ele nessa questão. (Uau!) Mas será que o governo pode realmente tomar providências? Eles acham que sim. Ontem, um novo memorando executivo e um comunicado à imprensa da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) fizeram uma solicitação para intensificar a fiscalização contra os anúncios de medicamentos [1,2].

Aqui vão respostas para as 9 perguntas principais.

  1. Por que os anúncios de medicamentos de prescrição são permitidos aqui?
    A história remonta a 1938, quando o Congresso aprovou a Lei de Alimentos, Medicamentos e Cosméticos. Durante décadas, a maioria presumiu que essa lei tornava ilegal anunciar medicamentos de prescrição diretamente aos consumidores [3]. Por quê? Porque nenhum anúncio poderia fornecer uma descrição completa e exaustiva dos benefícios e riscos de um medicamento. Assim, os anúncios inevitavelmente apresentariam informações incorretas sobre os medicamentos.

    Mas, na década de 1980, a FDA decidiu que isso não era exatamente verdade. A agência concluiu que os anúncios de medicamentos eram legais, desde que incluíssem um “breve resumo” do rótulo do medicamento aprovado pela FDA. Foi então que os anúncios em revistas sofisticadas decolaram — fotos grandes e chamativas em uma página, com letras minúsculas resumindo os riscos na página seguinte.

    Em 1997, a FDA fez outra mudança fundamental: na TV e no rádio, os fabricantes de medicamentos não precisavam mais do resumo completo. Em vez disso, eles podiam fornecer uma “declaração importante” dos principais riscos. Esse foi o momento em que a era moderna dos comerciais farmacêuticos começou.

  2. Os anúncios de medicamentos tornam os medicamentos mais caros?
    Não diretamente. Os medicamentos de marca são caros nos EUA porque permitimos que os fabricantes definam o preço que quiserem. Ao contrário da maioria dos outros países, o governo não negocia esses preços antecipadamente. Então, uma vez que um medicamento está no mercado, as empresas podem aumentar os preços à vontade.

    Mas os anúncios influenciam os medicamentos que os pacientes pedem, e esses tendem a ser os mais caros.

    Os fabricantes de genéricos raramente anunciam porque enfrentam o que os economistas chamam de problema do “carona” (free-rider). Várias empresas fabricam o mesmo medicamento genérico. Se você pedir um genérico ao seu médico, a farmácia lhe dará a versão que estiver em estoque, não uma marca específica. Isso significa que um anúncio de uma empresa de genéricos também pode impulsionar as vendas de seus concorrentes. Por que se dar ao trabalho?

    Como resultado, quase todos os anúncios de medicamentos são de medicamentos de marca caros. Isso significa que os pacientes que respondem aos anúncios muitas vezes acabam pagando por esses medicamentos caros, mesmo quando existe um genérico mais barato e igualmente eficaz ou até mesmo um tratamento sem medicamentos.

  3. O número de anúncios aumentou ao longo do tempo?
    Sim, especialmente para pacientes (ou consumidores) em comparação com médicos. Um estudo descobriu que, entre 1997 e 2016, os gastos com publicidade direta ao consumidor saltaram de US$ 2,1 bilhões para US$ 9,6 bilhões [4]. Hoje, os fabricantes de medicamentos investem cerca de US$ 6 bilhões por ano nesses anúncios, a maior parte concentrada nos medicamentos de marca mais vendidos — e não necessariamente os melhores medicamentos de marca

    Outro estudo descobriu que menos de um terço dos medicamentos mais comuns apresentados em anúncios televisivos direcionados ao consumidor foram classificados como tendo alto valor agregado para os pacientes [6].

  4. Por que os anúncios passam metade do tempo listando efeitos colaterais?
    É obrigatório. Quando a FDA abriu as portas para anúncios na TV no final dos anos 1990, fez isso com condições. As empresas tinham que incluir uma “declaração principal” (major statement) com os principais riscos.

    Além disso, os anúncios de medicamentos devem apresentar “equilíbrio justo” (fair balance), o que significa que os aspectos positivos e negativos precisam ser ambos apresentados. Na prática, isso geralmente quer dizer que a primeira metade do comercial mostra pessoas se divertindo na praia, enquanto a segunda metade é uma enumeração vertiginosa de advertências.

    Figura retirada de Medical Marketing in the United States, 1997-2016 (Marketing médico nos Estados Unidos, 1997-2016) na JAMA. Fonte [5].

  5. Os anúncios de medicamentos são enganosos?
    Resposta curta: às vezes.

    O Escritório de Promoção de Medicamentos de Prescrição (OPDP) da FDA deve garantir que os anúncios sejam precisos, não enganosos e razoavelmente equilibrados. Mas aqui está o problema: as empresas não precisam enviar os anúncios para aprovação antes de exibi-los. Quando o OPDP encontra anúncios problemáticos, geralmente é meses depois de eles terem sido divulgados.

    E o que é considerado “enganoso” nem sempre é claro. Veja o caso de um anúncio que promove um novo medicamento para dormir que ajuda as pessoas a “adormecer rapidamente” [7]. Isso parece impressionante até você descobrir que, no estudo que levou à aprovação do medicamento pela FDA, os pacientes que tomaram o medicamento adormeceram em 30 minutos, enquanto as pessoas que tomaram placebo adormeceram em 45 minutos. Não é uma grande diferença. O anúncio é tecnicamente enganoso? É difícil dizer.

    A psicologia complica ainda mais as coisas. Estudos mostram que, quando os riscos dos medicamentos são lidos em voz alta enquanto imagens calmantes são exibidas ao fundo, os espectadores se distraem das informações sérias [8]. O anúncio cumpre as regras, mas o impacto sobre os pacientes é outra história.

  6. Esses anúncios realmente ajudam os pacientes?
    Essa é uma questão complicada.

    Por um lado, os anúncios de medicamentos aumentam a prescrição dos medicamentos apresentados. É possível imaginar um caso em que isso seja bom. Pacientes que, de outra forma, poderiam sofrer em silêncio, por exemplo, com disfunção erétil ou depressão, podem ser incentivados a iniciar conversas com seus médicos. Em teoria, os anúncios podem empoderar as pessoas a procurar tratamento para condições estigmatizadas.

    Por outro lado, os anúncios podem levar à “prescrição excessiva”. Se um paciente entra no consultório médico e pede um medicamento pelo nome, estudos mostram que é mais provável que ele o receba, mesmo que uma abordagem diferente pudesse ter sido melhor [9]. Isso levantou preocupações sobre os anúncios incentivarem o uso desnecessário ou inadequado, especialmente para condições como TDAH em adultos, olhos secos ou transtorno de adaptação.

    A verdade é que os anúncios de medicamentos são uma faca de dois gumes. Eles podem abrir portas para o cuidado, mas, na maioria das vezes, incentivam prescrições caras e até mesmo desnecessárias.

  7. Os EUA poderiam proibir esses anúncios?
    Proibir anúncios de medicamentos seria difícil de imaginar nos EUA por vários motivos.

    A maior delas é a Primeira Emenda. A proibição dos anúncios de medicamentos teria que ser defendida na Justiça, já que as empresas farmacêuticas entrariam imediatamente com uma ação para revogar a proibição. Mas a Suprema Corte interpretou a proteção da liberdade de expressão da Primeira Emenda como abrangendo entidades comerciais, mesmo que as empresas não sejam pessoas. Infelizmente, é difícil imaginar uma mudança na perspectiva atual dos tribunais sobre a liberdade de expressão comercial, a menos que haja uma emenda constitucional que esclareça que as empresas não são pessoas e não merecem proteções semelhantes à liberdade de expressão.

    Portanto, se não for uma proibição — e na ausência de um acordo voluntário dos laboratórios para interromper a publicidade —, o governo poderia tentar regulamentar os anúncios de medicamentos de forma mais rigorosa. Por exemplo, a FDA poderia criar regras sobre seu conteúdo ou onde e quando eles podem ser exibidos. Os anúncios online, em particular, podem ter características que os tornam propensos a interpretações erradas — por exemplo, como as informações sobre riscos são exibidas ou como elementos de design que distraem (como vídeos com reprodução automática ou pop-ups) podem afetar a compreensão. A FDA poderia tentar identificar tais situações e estabelecer regras para lidar com elas. O Congresso também poderia fornecer mais recursos e autoridade à FDA para identificar rapidamente anúncios problemáticos e removê-los de circulação.

  8. Por que isso não foi feito antes?
    Em uma palavra: lobby.

    A indústria farmacêutica tem a organização de lobby mais poderosa e com mais recursos em Washington D.C. Ela historicamente se opôs a quaisquer esforços que restringissem a capacidade dos fabricantes de anunciar amplamente porque, como observado acima, os anúncios de medicamentos ajudam os fabricantes de marcas famosas a ganhar dinheiro. A indústria forneceu fundos substanciais ao longo dos anos a muitos legisladores e ajudou a eleger presidentes que definiram a agenda e o financiamento da FDA.

  9. Então, essa proposta da FDA tem força?
    A nova diretiva parece rígida, mas, na prática, não tem muito impacto. Assim como nos próprios anúncios de medicamentos, é importante ler as letras miúdas [10]!

As principais medidas incluídas na diretiva são:

  • Aplicação mais rigorosa:A FDA planeja emitir cerca de 100 cartas de cessação e desistência e “milhares” de cartas de advertência sobre anúncios de medicamentos.
  • Eliminar uma lacuna: em suas principais declarações sobre os riscos dos medicamentos, os anúncios de TV e rádio há muito tempo têm permissão para listar apenas os riscos “mais importantes” se indicarem aos telespectadores um site ou número de telefone para obter mais detalhes. O governo afirma que essa regra de “disposição adequada” não é suficiente e quer que mais riscos sejam explicitados diretamente nos anúncios, mesmo que isso os torne um pouco mais longos.
  • Ampliando a supervisão: Os reguladores estão sendo orientados a prestar mais atenção à forma como os anúncios de medicamentos aparecem nas plataformas de mídia social.

O impacto dessas medidas provavelmente será limitado. As cartas de advertência quase sempre resultam apenas na retirada ou ajuste do anúncio pela empresa, sem multas ou penalidades adicionais — muitas vezes meses depois que o anúncio já foi amplamente divulgado. Com os recentes cortes de pessoal e orçamento na FDA, também será difícil manter uma supervisão consistente e agressiva das redes sociais. A diretiva nem sequer tenta fornecer detalhes sobre a chamada supervisão ampliada, como diretrizes essenciais sobre o que deve ou não ser permitido na publicidade de medicamentos nas redes sociais. Detalhes desse tipo se fizeram necessários há muitos anos (e ainda são necessários)!

Conclusão
Os anúncios de medicamentos de prescrição são uma forma limitada e inerentemente problemática de informar as pessoas sobre medicamentos de prescrição. Precisamos fazer um trabalho muito melhor para capacitar os pacientes a obterem o cuidado médico de que precisam e para educá-los sobre os verdadeiros benefícios e riscos dos medicamentos de prescrição de forma imparcial.

Se isso vai mudar ou não, dependerá não apenas de um governo, mas de como nós, como país, decidimos equilibrar o poder corporativo, a propaganda comercial e a saúde de nossos cidadãos.

Referências

  1. Memorandum for the Secretary of Health and Human Services the Commissioner of Food and Drugs. The White House. September 9, 2025. https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/09/memorandum-for-the-secretary-of-health-and-human-services-the-commissioner-of-food-and-drugs/
  2. Office of the Commissioner. FDA launches crackdown on deceptive drug advertising. U.S. Food And Drug Administration. September 9, 2025. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-launches-crackdown-deceptive-drug-advertising
  3. Kravitz R. L. Direct-to-consumer advertising of prescription drugs. Western Journal of Medicine. October, 2000; 173(4), 221–222. https://doi.org/10.1136/ewjm.173.4.221
  4. Schwartz L. M.,Woloshin, S. Medical Marketing in the United States, 1997.2016. JAMA. January 1, 2019. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2720029
  5. Schwartz, L. M., Woloshin, S. Medical Marketing in the United States, 1997.2016. JAMA. January 1, 2019b. https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2720029
  6. Patel N. G., Hwang T. J., Woloshin S. Therapeutic Value of Drugs Frequently Marketed Using Direct-to-Consumer Television Advertising, 2015 to 2021. JAMA Network. January 13, 2023. https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2800405
  7. How well does a drug work? Look beyond the fine print. NPR. July 25, 2014. https://www.npr.org/sections/health-shots/2014/07/25/333726737/how-well-does-a-drug-work-look-beyond-the-fine-print
  8. Sullivan H. W., Aikin K. J., Poehlman J. Communicating risk information in Direct-to-Consumer Prescription Drug Television ads: A Content analysis. Health Communication. November 10, 2017; 34(2), 212–219. https://doi.org/10.1080/10410236.2017.1399509
  9. Kravitz R. L., Epstein R. M., Feldman M. D. et al. Influence of patients’ requests for Direct-to-Consumer advertised antidepressants. JAMA. April 27, 2005. 293(16), 1995. https://doi.org/10.1001/jama.293.16.1995
  10. Office of the Commissioner. FDA launches crackdown on deceptive drug advertising. U.S. Food And Drug Administration. September 9, 2025b. https://www.fda.gov/news-events/press-announcements/fda-launches-crackdown-deceptive-drug-advertising
creado el 6 de Marzo de 2026