Salud y Fármacos is an international non-profit organization that promotes access and the appropriate use of pharmaceuticals among the Spanish-speaking population.

Globalização dos Ensaios Clínicos

China avança na corrida global para consolidar-se como potência em experimentação biomédica com seres humanos

Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ensaios Clínicos 2026; 4(3)

Tags: organizações de pesquisa por contrato, CRO, globalização dos ensaios clínicos, fármacos me too, sintilimabe, ivonescimabe

A seguir, resumimos uma nota publicada na BioSpace [1], que afirma que, segundo um relatório da McKinsey [2], a China conseguiu reduzir em 50% a 70% o tempo entre a descoberta de um medicamento e a solicitação de autorização para realizar ensaios clínicos em seres humanos. O país também aumentou sua participação na pesquisa clínica para 39% em 2023, superando os Estados Unidos e a União Europeia em termos de recrutamento de pacientes e prazos de desenvolvimento.

A China alcançou esses resultados estabelecendo fluxos de trabalho paralelos, com sistemas robustos de organizações de pesquisa por contrato (Contract Research Organizations – CROs) e criando uma cultura de execução intensiva.

Cada vez mais empresas farmacêuticas desejam atuar na China. Por exemplo, a AstraZeneca anunciou um investimento de US$ 15 bilhões, direcionado especialmente para iniciativas em terapia celular e radioligantes. O novo investimento abrangerá todas as etapas do processo de desenvolvimento, desde o desenho de fármacos e o desenvolvimento clínico até a fabricação [1].

A China avança rapidamente na disputa para atrair investidores e consolidar-se como uma potência mundial em pesquisa clínica. As empresas farmacêuticas multinacionais que estabeleceram acordos de licenciamento com empresas chinesas de biotecnologia identificaram importantes vantagens operacionais. Robert Plenge, diretor científico da Bristol Myers Squibb (BMS), afirmou que a China permite avaliar programas em estágios iniciais e realizar estudos de prova de conceito com maior eficiência para identificar o que funciona e o que não funciona [1].

O poder científico da China não surgiu da noite para o dia. Segundo o diretor de estratégia e crescimento da Novartis, décadas atrás, a China ingressou no campo do desenvolvimento de medicamentos oferecendo serviços à indústria farmacêutica por meio da pesquisa por contrato, dos ensaios clínicos e de outros serviços de pesquisa. Posteriormente, as empresas passaram a desenvolver fármacos me too, ou seja, medicamentos semelhantes (da mesma classe) aos já disponíveis (ou em desenvolvimento), mas com pequenas modificações. Atualmente, as empresas chinesas de biotecnologia estão produzindo compostos inovadores em ritmo acelerado, e vários deles já foram objeto de acordos comerciais de grande porte.

Esse interesse pela descoberta de novos medicamentos explica o grande número de ensaios clínicos, especialmente na Fase I. Além disso, segundo a consultoria McKinsey, a pesquisa está se tornando cada vez mais inovadora. A empresa destacou o caso do ivonescimabe, um anticorpo biespecífico PD-1/VEGF desenvolvido pela Akeso, cujos primeiros ensaios foram realizados na China antes do estabelecimento de uma parceria com a Summit Therapeutics para conduzir os estudos nos Estados Unidos.

À medida que mais acordos de licenciamento são firmados, as empresas biofarmacêuticas vêm ampliando seus quadros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) na China, afirmou John Wu, diretor executivo e sócio do grupo de saúde da consultoria BCG. Isso ocorre apesar dos esforços do Congresso dos Estados Unidos para restringir o uso de fornecedores chineses por meio de iniciativas legislativas, como a Lei BIOSECURE.

Realizar ensaios clínicos na China é mais barato, mas o país também oferece vantagens regulatórias. Por exemplo, a China facilita a realização de ensaios clínicos iniciados por pesquisadores, em vez de companhias farmacêuticas. Se um pesquisador independente deseja conduzir um ensaio clínico utilizando terapia celular, terapia gênica, terapias com radioligantes ou tratamentos com células-tronco, ele não precisa apresentar um pedido de Novo Medicamento em Investigação (Investigational New Drug – IND). Em contrapartida, nos Estados Unidos, a FDA exige essa solicitação.

No entanto, há outros países que também vêm promovendo a pesquisa e o desenvolvimento (P&D).

  • A Austrália não exige pedidos de IND para estudos de Fase I. O governo incentiva a pesquisa oferecendo apoio às organizações de pesquisa por contrato (Contract Research Organizations – CROs), ao recrutamento de voluntários e disponibilizando incentivos fiscais favoráveis.
  • A Coreia do Sul aumentou sua atividade em pesquisa clínica na área de oncologia, especialmente no desenvolvimento de conjugados anticorpo-fármaco e de terapias celulares e gênicas. No país, a indústria de biotecnologia, os centros hospitalares de P&D e as organizações de pesquisa por contrato (CROs) vêm sendo fortalecidos.
  • A Índia pode tornar-se um polo de biotecnologia. O país já lidera a produção de ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) e de medicamentos genéricos. Empresas multinacionais avaliam instalar operações no país, especialmente nas áreas de assuntos regulatórios, ensaios clínicos e estatística. A Índia também fortaleceu sua experiência em biossimilares e conjugados anticorpo-fármaco. Profissionais com experiência internacional estão retornando ao país para fundar novas empresas, enquanto o governo promove políticas nacionais voltadas ao incentivo da pesquisa farmacêutica e da tecnologia médica.
  • Singapura também busca consolidar-se como um centro regional de inovação farmacêutica. Em particular, o país posicionou-se como uma plataforma de lançamento para empresas que desejam acessar os mercados asiáticos, oferecendo processos eficientes para a realização de ensaios clínicos.
  • A Europa tenta recuperar sua competitividade no campo dos ensaios clínicos. A participação europeia nesses estudos diminuiu de 22% em 2013 para 12% em 2023. A Comissão Europeia atribuiu essa redução às dificuldades de acesso a capital e à complexidade das regulamentações. Muitos cientistas e startups buscaram oportunidades fora da Europa, o que acelerou as reformas regulatórias nesse setor. A União Europeia lançou o Biotech Act para facilitar o financiamento e simplificar os processos regulatórios. Essa iniciativa reduzirá o tempo de autorização de ensaios multinacionais de 75 para 47 dias, quando as solicitações não exigirem informações adicionais, e de 106 para 76 dias, quando os processos envolverem exigências complementares.

Persistência de limitações regulatórias globais
É importante lembrar que, para que a FDA aprove a comercialização de um produto nos Estados Unidos, pelo menos 20% dos participantes dos ensaios clínicos devem ser norte-americanos.

Esse requisito levou a FDA a rejeitar o pedido de comercialização do sintilimabe, desenvolvido pela Eli Lilly e pela Innovent. O mesmo ocorreu com a Roche, quando solicitou a aprovação do Columvi para o tratamento do linfoma difuso de grandes células B.

A qualidade dos dados continua sendo um fator determinante. Alguns especialistas questionaram a reprodutibilidade dos dados iniciais gerados na China. Robert Plenge acredita que qualquer região pode produzir informações úteis, desde que os estudos adotem controles rigorosos e padrões sólidos de qualidade no gerenciamento dos dados.

Os Estados Unidos continuam sendo um mercado importante; no entanto, não dispõem de pacientes suficientes para atender à crescente demanda global por pesquisa clínica. Por esse motivo, a indústria precisa continuar expandindo a experimentação biomédica com seres humanos para outros países. O modelo norte-americano é excessivamente caro, menos ágil e mais competitivo.

Nota de Salud y Fármacos: para mais informações sobre o avanço da China na área de ensaios clínicos acesse: https://www.saludyfarmacos.org/boletin-farmacos/boletines/ago202506/08_un/

Fonte Original:

  1. Armstrong A. Clinical Trials are increasingly going global, with China as a main beneficiary. BioSpace, 2 de Febrero de 2026. https://www.biospace.com/drug-development/clinical-trials-are-increasingly-going-global-with-china-a-main-beneficiary

Referencias

  1. Popli, Anirudh Roy; Zhang, Fangning; Park, Jay. The emerging epicenter: Asia’s role in biopharma’s future. McKinsey, 7 de enero de 2026 https://www.mckinsey.com/industries/life-sciences/our-insights/the-emerging-epicenter-asias-role-in-biopharmas-future
creado el 31 de Julio de 2026