Este livro sustenta que alcançamos o “pico” de um modelo específico de produção farmacêutica — o modelo neoliberal de valor, vigente desde o início da década de 1980. “Pico” designa um estado em que as contradições de um modelo de valor se intensificam a tal ponto que o sistema não pode deixar de mudar: é o momento em que os produtos de uma indústria se tornam excessivamente caros, seus recursos se esgotam e as coalizões que sustentavam aquele modelo de valor se desintegram. Em outras palavras, é o ponto em que uma indústria entra em colapso sob o peso da própria ganância, por ter capturado valor demais para si e deixado valor de menos para os demais atores do sistema.
Peak Pharma argumenta que o sistema farmacêutico neoliberal está atingindo seu “pico” em vários aspectos fundamentais: pico dos preços, pico da concentração, pico da financeirização e pico da expansão. O termo é utilizado para sinalizar a crise e o possível fim de um modelo de negócios que definiu uma era no setor farmacêutico.
O livro apresenta uma síntese de uma década de investigações empíricas conduzidas pelos autores sobre movimentos sociais que contestam o mercado farmacêutico. Reúne um amplo conjunto de conhecimentos atualmente dispersos entre a economia política, a sociologia, os estudos de ciência, tecnologia e sociedade, os estudos organizacionais e a história da medicina, com o objetivo de acompanhar as dinâmicas neoliberais que, ao longo dos últimos quarenta anos, produziram uma aceleração em direção a esse “pico”.
A obra examina o surgimento de diferentes vozes e grupos que contestaram essa evolução, sobretudo em momentos específicos de crise e de revelação, incluindo a luta pelo acesso aos medicamentos contra o HIV/Aids, a era da saúde global, a responsabilidade social corporativa da indústria farmacêutica, o advento da medicina personalizada e da saúde digital, a Covid-19, entre outros.
Os autores analisam as mudanças nas coalizões entre a indústria farmacêutica, as organizações de pacientes e os governos, que continuaram sustentando o sistema neoliberal de valor ao longo dessa evolução. Demonstram que a recente aceleração em direção ao pico levou muitas vozes centristas de organizações de pacientes, da academia e da política a mudar de orientação, abandonando a simples reparação do mercado e passando a imaginar economias farmacêuticas alternativas, entre as quais se destacam as concepções dos medicamentos e do conhecimento farmacêutico como bens comuns.
O livro se encerra com um conjunto de recomendações dirigidas a formuladores de políticas públicas e atores da sociedade civil interessados em promover uma economia política alternativa da saúde.