O The Lancet publicou uma nota de preocupação (expression of concern) sobre um relato de caso de 2006 que descrevia a morte de um bebê supostamente causada por intoxicação por morfina transmitida pelo leite materno. A decisão foi tomada poucos dias após a revista The New Yorker publicar uma investigação de um ano sobre a morte e as controvérsias que a cercam. [1].
O relato de caso descrevia a morte, em 2005, de um menino cuja mãe havia recebido prescrição de Tylenol 3, medicamento que contém codeína [2]. Gideon Koren, fundador do extinto Motherisk Drug Testing Laboratory, do Hospital for Sick Children, da Universidade de Toronto, utilizou esse caso durante anos para sustentar que a codeína — que é metabolizada em morfina no organismo — pode representar um risco letal para lactentes amamentados.
“Passa a impressão de ser uma espécie de reivindicação”, disse David Juurlink, professor de Medicina e Pediatria da Universidade de Toronto, ao Retraction Watch, referindo-se à expressão de preocupação. Juurlink, farmacologista e toxicologista que investiga esse caso hão mais de uma década, solicitou ao The Lancet a retratação do artigo em 2020, quando ele e um colega publicaram um artigo de revisão que questionava elementos fundamentais do relato de caso. Segundo ele, o artigo “serve, de fato, como fundamento para todo um ramo da farmacologia pediátrica que não deveria existir”.
Koren, pediatra e farmacologista, pediu demissão do Hospital for Sick Children, conhecido como SickKids, em 2015, após uma investigação sobre o Motherisk, laboratório que realizava testes para detectar exposição perinatal a drogas e álcool, inclusive em processos criminais e de proteção à infância. A investigação, motivada por reportagens do jornal Toronto Star, concluiu que os resultados produzidos pelo laboratório eram “inadequados e não confiáveis”, segundo o jornal [3]. A investigação levou mais de 400 artigos de Koren a serem examinados pelo hospital. [4].
Em 2008, o The Lancet publicou uma carta levantando questionamentos sobre algumas das conclusões do artigo de 2006. O toxicologista Nicholas Bateman e colaboradores questionaram se a quantidade de morfina transmitida pelo leite materno poderia realmente ser fatal [5]. Em resposta, Koren e seus colegas atribuíram a dose ao fato de a mãe ser uma metabolizadora ultrarrápida de codeína, ou seja, seu organismo converteria codeína em morfina com maior eficiência [6].
O relato voltou a ser questionado em 2020, quando Juurlink e o farmacologista Jonathan Zipursky publicaram uma revisão demonstrando a baixa probabilidade de ocorrência de toxicidade por morfina através do leite materno [7]. Eles observaram que a concentração de morfina na amostra de leite era relativamente baixa, mesmo considerando que a mãe fosse uma metabolizadora ultrarrápida, e que a concentração sanguínea de codeína — e não de morfina — encontrada no bebê era cem vezes maior do que seria esperado caso a exposição tivesse ocorrido exclusivamente pelo leite materno.
Essa revisão de 2020 resultou em reportagens no Toronto Star e em um pedido de retratação ao The Lancet, além de solicitações de retratação de artigos que Koren havia publicado nas revistas Canadian Family Physician e Canadian Pharmacists Journal [8-10]. As duas revistas canadenses consultaram especialistas externos e decidiram retratar os artigos, com base em “evidências claras de que os resultados não são confiáveis”, conforme declarado no comunicado conjunto de retratação [11].
O The Lancet encaminhou o caso ao SickKids para investigação, e o hospital concluiu que a questão se tratava apenas de uma “divergência científica”, conforme relatado pelo Toronto Star em 2023 [12].
“Eles procuraram Gideon Koren e três de seus coautores no artigo e perguntaram: ‘Vocês mantêm suas conclusões?’”, contou Juurlink. “Em nenhum universo isso constitui uma investigação competente.”
Parvaz Madadi, que havia sido doutoranda no laboratório de Koren, figurava como coautora dos dois artigos posteriormente retratados. No entanto, ela declarou à The New Yorker que não escreveu nenhum deles.
Em 20 de janeiro, poucos dias antes da publicação da reportagem da The New Yorker, Madadi escreveu ao The Lancet solicitando a retratação do artigo de 2006. A iniciativa ocorreu após ela revisar seus trabalhos anteriores e o relato de caso.
“No centro de sua carta está uma nova alegação: que Koren falsificou dados toxicológicos”, afirma a reportagem da The New Yorker. Madadi confirmou essas informações ao Retraction Watch, mas preferiu não comentar mais, enquanto a investigação estiver em andamento. De acordo com a notificação publicada em 3 de fevereiro, “o The Lancet recebeu novas alegações de falsificação de dados toxicológicos, problemas relacionados à autoria e preocupações éticas envolvendo o relato de caso, acompanhadas de um novo pedido de retratação” [13].
Juurlink afirmou ter escrito novamente ao The Lancet na semana anterior para reforçar os problemas científicos do artigo. “Ele deve ser retratado porque não é confiável, devido a erros científicos graves”, declarou.
Segundo a notificação, o The Lancet voltou a encaminhar o caso ao SickKids para investigação. A revista recusou-se a fazer comentários adicionais.
Koren mudou-se para Israel após ser desligado do SickKids em 2015. Em 2022, estava vinculado à Ariel University Adelson School of Medicine, mas atualmente seu nome não consta mais entre os docentes, e não foi possível localizar informações de contato atualizadas. A The New Yorker informou que não conseguiu contatá-lo para comentar o caso.
Em 2019, uma revista retratou um artigo de Koren “devido a preocupações relacionadas à má conduta acadêmica e científica”, incluindo a publicação do trabalho sem o consentimento de seu co-autor, conforme noticiado pelo Retraction Watch na época [14 e 15]. Segundo levantamento da própria publicação, Koren acumula seis retratações.
A reportagem da The New Yorker relata que David Naylor, ex-presidente interino e diretor-executivo do SickKids, descreveu membros do corpo docente do hospital “analisando intermináveis manuscritos” e “desenvolvendo estratégias para solicitar a retratação dos trabalhos mais graves de Koren”.
Juurlink afirmou que o impacto das pesquisas não confiáveis de Koren foi enorme, mas que seus efeitos ainda não foram totalmente mensurados.
“Não se trata apenas da morte de um único bebê”, disse Juurlink. “Trata-se de milhões de bebês que deixaram de ser amamentados porque suas mães estavam usando opioides. Trata-se de milhões de mulheres que tiveram sua analgesia no período periparto modificada com base em um mito”, afirmou. “E, principalmente, trata-se de mortes de bebês que foram equivocadamente atribuídas ao leite materno em decorrência de toda essa narrativa.”
Ele concluiu: “Acho que agora cabe ao Hospital for Sick Children fazer a coisa certa desta vez.”
Referências