Salud y Fármacos is an international non-profit organization that promotes access and the appropriate use of pharmaceuticals among the Spanish-speaking population.

Integridade da Ciência

Revistas científicas retratam 500 artigos por mês. Entenda por que isso importa

(Science journals retract 500 papers a month. This is why it matters)
Ivan Oransky, Alice Dreger
The Times, 17 de janeiro de 2026
https://www.thetimes.com/uk/science/article/science-journals-retract-500-papers-a-month-this-is-why-it-matters-8ckm8lfw9
Traduzido por Salud y Fármacos, publicado em Boletim Fármacos: Ética, 2026; 4(3)

Tags: retratação de artigos, fraude em pesquisa, fraude científica, revisão por pares, incentivos acadêmicos, fábricas de artigos

Uma pequena equipe de voluntários está rastreando milhares de estudos falsificados, incluindo casos de suborno, fraude e plágio.

O que você pensaria se soubesse que um ganhador do Prêmio Nobel de uma das principais universidades dos Estados Unidos precisou retratar 15 de seus artigos científicos? Ou que um estudo sobre a doença de Alzheimer, citado mais de 2.000 vezes — uma importante linha de investigação na qual se basearam novas pesquisas e até ensaios clínicos — foi retratado porque um dos autores manipulou imagens fundamentais?

Talvez você tenha visto, apenas na semana passada, notícias de que um estudo amplamente divulgado sobre a contaminação do organismo humano por microplásticos passou a ser seriamente questionado. Ou que o prestigiado Dana-Farber Cancer Institute concordou em pagar US$ 15 milhões (£11,2 milhões) para encerrar uma ação judicial que alegava falsificação de dados por seus pesquisadores.

Estamos cercados por casos em que resultados científicos deixam de ser confiáveis, não porque novas descobertas tenham refutado teorias anteriores, mas porque investigações sobre sua precisão ou veracidade identificaram indícios de irregularidades. Tradicionalmente, a ciência depende da revisão por pares antes da publicação, na qual dois ou três especialistas analisam cada manuscrito submetido. Espera-se que esses revisores identifiquem previamente problemas como inconsistências nos dados ou conclusões incorretas.

Entretanto, a revisão por pares nunca foi um filtro tão eficiente quanto muitos imaginam. Ela depende do trabalho voluntário de pesquisadores que, dentro do sistema acadêmico, são recompensados por publicar artigos, e não por revisá-los. Os editores das revistas procuram selecionar avaliadores qualificados, mas nem sempre encontram especialistas com o conhecimento ou o tempo necessários para examinar detalhadamente os dados e os materiais originais. Além disso, a inteligência artificial tornou muito mais fácil produzir e submeter textos de baixa qualidade, parcialmente inventados ou sem utilidade científica, utilizados por alguns pesquisadores como um atalho para obter empregos, promoções e aumentos salariais.

Esse problema pode ter consequências concretas. No caso do artigo sobre Alzheimer publicado na revista Nature em 2006 e posteriormente retratado, o financiamento destinado às pesquisas sobre a proteína estudada aumentou significativamente, assim como o número de trabalhos de outros pesquisadores que utilizaram esse estudo como fundamento para seus próprios experimentos, sem saber que ele continha dados manipulados. O artigo serviu ainda como parte da base científica para ensaios clínicos de um novo medicamento que acabou fracassando, após consumir bilhões de dólares em investimentos.

A dimensão do problema é hoje muito maior do que quando o Retraction Watch foi criado, em 2010. Os voluntários responsáveis pelo site acompanham artigos retratados com o objetivo de aumentar a transparência do processo científico. A iniciativa surgiu quando um de seus fundadores, o jornalista científico Adam Marcus, descobriu, dois anos antes, que um anestesiologista e pesquisador norte-americano da área de manejo da dor havia falsificado dados em ensaios clínicos. Scott Reuben acabou sendo condenado à prisão por crimes relacionados à má conduta científica.

Quando uma editora retrata um artigo, está declarando que seu conteúdo não é confiável. No entanto, em 2010, essas retratações praticamente passavam despercebidas. Por isso, o Retraction Watch passou a monitorá-las e divulgá-las. Rapidamente ficou evidente que era impossível acompanhar todos os casos, que já somavam dezenas por mês. Atualmente, esse número se aproxima de 500 retratações mensais, enquanto o banco de dados do projeto já registra cerca de 63 mil artigos retratados. A manutenção desse banco de dados é realizada por uma equipe de três pessoas em tempo integral.

O caso do Dana-Farber, revelado pelo denunciante Sholto David, exemplifica uma das principais mudanças por trás do aumento expressivo das retratações. Investigadores independentes como David, em sua maioria voluntários, desempenham um papel fundamental na ciência contemporânea ao dedicar inúmeras horas para identificar plágio, além de dados, análises estatísticas e imagens suspeitas. Ao examinar estudos produzidos por pesquisadores do Dana-Farber, David verificou que fotografias de camundongos supostamente obtidas em diferentes etapas de um experimento eram idênticas e identificou amostras de medula óssea humana apresentadas de forma enganosa. Esse tipo de investigação detalhada só se tornou viável em larga escala graças ao desenvolvimento de ferramentas de análise forense, algumas delas baseadas em inteligência artificial.

Os pesquisadores que trabalham nessa área reúnem-se em comunidades on-line para compartilhar métodos e descobertas. Esse trabalho colaborativo vem produzindo mudanças importantes. Durante anos, a maioria das editoras científicas (e dos próprios cientistas) negou publicamente que houvesse problemas significativos no sistema de revisão por pares. No entanto, o trabalho dos investigadores independentes e a cobertura da imprensa levaram a um processo de reconhecimento do problema. Atualmente, todas as grandes editoras mantêm equipes de integridade científica responsáveis por investigar denúncias e retratar artigos quando necessário.

Apesar disso, trata-se de uma tarefa praticamente interminável. Como o Retraction Watch vem documentando, as chamadas paper mills — organizações que comercializam artigos científicos e autoria para pesquisadores interessados em impulsionar suas carreiras — estão se multiplicando rapidamente, sobrecarregando um sistema que nunca contou com revisores suficientes para garantir a confiabilidade de tudo o que é publicado. A editora Hindawi, adquirida pela Wiley em 2021, precisou retratar recentemente 13 mil artigos que haviam sido produzidos por essas fábricas de artigos.

Também foram documentados casos de suborno envolvendo editores científicos. Em junho de 2023, o pesquisador Nicholas Wise, da Universidade de Cambridge, descobriu que uma empresa chinesa oferecia aos editores de periódicos mais de US$ 20 mil (£15 mil) para que aceitassem artigos para publicação.

Enquanto pesquisas conduzidas com rigor e conclusões cautelosas frequentemente recebem pouca atenção, pesquisadores acabam sendo recompensados — com financiamentos e cargos acadêmicos — por publicar resultados alarmantes e capazes de gerar grande repercussão na mídia. Depois que esses estudos ganham destaque e passam a ser utilizados por grupos de defesa, políticos e outros atores, torna-se extremamente difícil corrigir ou reverter suas conclusões. O exemplo mais conhecido é o artigo publicado na revista The Lancet em 1998 e coassinado por Andrew Wakefield, amplamente responsabilizado por impulsionar o movimento antivacina contemporâneo. O estudo fraudulento foi finalmente retratado em 2010. No entanto, Wakefield tornou-se uma figura admirada por parte do público, incluindo Robert F. Kennedy Jr., atual secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. Para muitas pessoas, a retratação do artigo não demonstra que Wakefield estava errado, mas serve como suposta evidência de que as empresas farmacêuticas decidem o que afirma a literatura médica.

Pesquisadores de diferentes áreas e níveis de prestígio também foram obrigados a retratar trabalhos. Gregg Semenza, vencedor do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2019 pelas descobertas sobre como as células detectam e respondem à disponibilidade de oxigênio, teve imagens duplicadas e manipuladas identificadas em seus estudos por um pesquisador anônimo.

Nem todas as retratações decorrem de fraude científica. Em alguns casos, os próprios autores reconhecem, após críticas da comunidade científica, que cometeram erros e decidem retirar ou corrigir suas conclusões. Isso ocorreu recentemente com um artigo publicado na revista Nature que apresentava estimativas superdimensionadas sobre o impacto econômico das mudanças climáticas.

Por trás de tudo isso existe uma realidade desconfortável, mas fundamental: a ciência avança justamente porque admite a possibilidade de estar errada. Quando essa característica é associada ao conhecimento sobre fraudes científicas e ao desperdício de recursos causado por pesquisas equivocadas, algumas pessoas podem concluir que a ciência não merece confiança. No entanto, essa não deveria ser a conclusão. A capacidade de identificar erros, corrigi-los e retratar estudos faz parte da própria força do método científico.

Em vez de desacreditar a ciência, é necessário fortalecer seus mecanismos de controle, reduzindo incentivos perversos que privilegiam a quantidade de publicações em detrimento da qualidade, ou resultados chamativos em vez de pesquisas rigorosas. Mais importante ainda, é preciso ajudar a sociedade a compreender que, quando estudos amplamente divulgados são posteriormente corrigidos, modificados ou retratados, isso representa o funcionamento normal da ciência em sua busca contínua por evidências mais confiáveis e pela aproximação da verdade.

creado el 28 de Julio de 2026