A seguir, resumimos uma nota publicada na BioSpace [1], que afirma que, segundo um relatório da McKinsey [2], a China conseguiu reduzir em 50% a 70% o tempo entre a descoberta de um medicamento e a solicitação de autorização para realizar ensaios clínicos em seres humanos. O país também aumentou sua participação na pesquisa clínica para 39% em 2023, superando os Estados Unidos e a União Europeia em termos de recrutamento de pacientes e prazos de desenvolvimento.
A China alcançou esses resultados estabelecendo fluxos de trabalho paralelos, com sistemas robustos de organizações de pesquisa por contrato (Contract Research Organizations – CROs) e criando uma cultura de execução intensiva.
Cada vez mais empresas farmacêuticas desejam atuar na China. Por exemplo, a AstraZeneca anunciou um investimento de US$ 15 bilhões, direcionado especialmente para iniciativas em terapia celular e radioligantes. O novo investimento abrangerá todas as etapas do processo de desenvolvimento, desde o desenho de fármacos e o desenvolvimento clínico até a fabricação [1].
A China avança rapidamente na disputa para atrair investidores e consolidar-se como uma potência mundial em pesquisa clínica. As empresas farmacêuticas multinacionais que estabeleceram acordos de licenciamento com empresas chinesas de biotecnologia identificaram importantes vantagens operacionais. Robert Plenge, diretor científico da Bristol Myers Squibb (BMS), afirmou que a China permite avaliar programas em estágios iniciais e realizar estudos de prova de conceito com maior eficiência para identificar o que funciona e o que não funciona [1].
O poder científico da China não surgiu da noite para o dia. Segundo o diretor de estratégia e crescimento da Novartis, décadas atrás, a China ingressou no campo do desenvolvimento de medicamentos oferecendo serviços à indústria farmacêutica por meio da pesquisa por contrato, dos ensaios clínicos e de outros serviços de pesquisa. Posteriormente, as empresas passaram a desenvolver fármacos me too, ou seja, medicamentos semelhantes (da mesma classe) aos já disponíveis (ou em desenvolvimento), mas com pequenas modificações. Atualmente, as empresas chinesas de biotecnologia estão produzindo compostos inovadores em ritmo acelerado, e vários deles já foram objeto de acordos comerciais de grande porte.
Esse interesse pela descoberta de novos medicamentos explica o grande número de ensaios clínicos, especialmente na Fase I. Além disso, segundo a consultoria McKinsey, a pesquisa está se tornando cada vez mais inovadora. A empresa destacou o caso do ivonescimabe, um anticorpo biespecífico PD-1/VEGF desenvolvido pela Akeso, cujos primeiros ensaios foram realizados na China antes do estabelecimento de uma parceria com a Summit Therapeutics para conduzir os estudos nos Estados Unidos.
À medida que mais acordos de licenciamento são firmados, as empresas biofarmacêuticas vêm ampliando seus quadros de pesquisa e desenvolvimento (P&D) na China, afirmou John Wu, diretor executivo e sócio do grupo de saúde da consultoria BCG. Isso ocorre apesar dos esforços do Congresso dos Estados Unidos para restringir o uso de fornecedores chineses por meio de iniciativas legislativas, como a Lei BIOSECURE.
Realizar ensaios clínicos na China é mais barato, mas o país também oferece vantagens regulatórias. Por exemplo, a China facilita a realização de ensaios clínicos iniciados por pesquisadores, em vez de companhias farmacêuticas. Se um pesquisador independente deseja conduzir um ensaio clínico utilizando terapia celular, terapia gênica, terapias com radioligantes ou tratamentos com células-tronco, ele não precisa apresentar um pedido de Novo Medicamento em Investigação (Investigational New Drug – IND). Em contrapartida, nos Estados Unidos, a FDA exige essa solicitação.
No entanto, há outros países que também vêm promovendo a pesquisa e o desenvolvimento (P&D).
Persistência de limitações regulatórias globais
É importante lembrar que, para que a FDA aprove a comercialização de um produto nos Estados Unidos, pelo menos 20% dos participantes dos ensaios clínicos devem ser norte-americanos.
Esse requisito levou a FDA a rejeitar o pedido de comercialização do sintilimabe, desenvolvido pela Eli Lilly e pela Innovent. O mesmo ocorreu com a Roche, quando solicitou a aprovação do Columvi para o tratamento do linfoma difuso de grandes células B.
A qualidade dos dados continua sendo um fator determinante. Alguns especialistas questionaram a reprodutibilidade dos dados iniciais gerados na China. Robert Plenge acredita que qualquer região pode produzir informações úteis, desde que os estudos adotem controles rigorosos e padrões sólidos de qualidade no gerenciamento dos dados.
Os Estados Unidos continuam sendo um mercado importante; no entanto, não dispõem de pacientes suficientes para atender à crescente demanda global por pesquisa clínica. Por esse motivo, a indústria precisa continuar expandindo a experimentação biomédica com seres humanos para outros países. O modelo norte-americano é excessivamente caro, menos ágil e mais competitivo.
Nota de Salud y Fármacos: para mais informações sobre o avanço da China na área de ensaios clínicos acesse: https://www.saludyfarmacos.org/boletin-farmacos/boletines/ago202506/08_un/
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Referencias