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Ensaios Clínicos e Ética

As CRO e os ensaios clínicos

Salud y Fármacos
Boletim Fármacos: Ética, 2026; 4(3)

Tags: CROs e a integridade dos dados provenientes de ensaios clínicos, fraude em ensaios clínicos, centros de ensaios clínicos não confiáveis, desempenho das CROs, proteção dos participantes de ensaios clínicos

Uma nota publicada na revista The Scientist aborda o papel das Organizações de Pesquisa por Contrato (CROs – Clinical Research Organizations) no controle dos dados coletados durante os ensaios clínicos e na integridade da ciência [1]. A seguir, apresentamos um resumo.

Em julho de 2025, a empresa T3D Therapeutics entrou com uma ação judicial contra a Clinilabs, uma CRO à qual havia pago US$ 14,5 milhões para gerenciar um ensaio clínico com pacientes portadores da doença de Alzheimer. A molécula em estudo, T3D-959, ativa os receptores PPAR-delta/gama, que influenciam o metabolismo da glicose e das gorduras e podem reduzir a inflamação, um fator-chave na doença de Alzheimer.

A T3D acusa a Clinilabs de encobrir uma fraude “de grande magnitude”, supostamente cometida por cinco clínicas do sul da Flórida que haviam recrutado grande parte dos participantes, administrado o medicamento e reportado os resultados. As clínicas envolvidas são IMIC Medical Research, CCM Clinical Research Group, Miami Dade Medical Research Institute, Premier Clinical Research Institute e Health Care Family Rehabilitation. Todos esses centros são empresas com fins lucrativos que funcionam em pequenos escritórios ou, em um dos casos, em uma clínica móvel coberta por anúncios para recrutamento de pacientes, dedicando-se exclusivamente à realização de ensaios clínicos.

Os resultados do ensaio pareciam promissores, mas, quando a T3D Therapeutics examinou detalhadamente os dados individuais de cada participante, deparou-se com um “cenário de pesadelo”. Conforme consta na ação judicial, os resultados eram “clinicamente impossíveis”. Foi relatado que alguns pacientes com Alzheimer pertencentes ao grupo placebo haviam apresentado melhora. A empresa alegou ainda que muitos dos participantes do estudo sequer eram portadores da doença e que não foram encontrados vestígios do T3D-959 nas amostras de sangue de outros participantes que supostamente haviam recebido o medicamento. Após descartar os dados considerados não confiáveis, a empresa declarou que o número de pacientes remanescentes era insuficiente para afirmar com segurança que o fármaco oferecia benefícios. O ensaio, financiado com US$ 35 milhões provenientes de recursos privados e federais, foi considerado perdido.

A T3D alegou que essas clínicas haviam manipulado os dados, aumentado artificialmente sua receita ao incluir numerosos candidatos que não tinham Alzheimer e cobrado pela triagem de outros participantes que, claramente, jamais deveriam ter sido considerados elegíveis para o estudo.

Tanto a Clinilabs quanto os cinco centros de ensaios clínicos negaram as acusações. A CRO atribuiu a responsabilidade à própria T3D, afirmando que ela havia elaborado um ensaio clínico deficiente e que a ação judicial estava repleta de “falsidades comprováveis”.

Essa disputa evidencia os riscos de depender de uma indústria em rápida expansão: as CROs, responsáveis por administrar ensaios clínicos para diversas empresas farmacêuticas e que recorrem a clínicas locais para recrutar e avaliar os participantes. Essas organizações transformaram-se em um mercado gigantesco, cujo valor foi estimado em mais de US$ 85 bilhões em 2024.

Os estudos sobre Alzheimer podem ser particularmente vulneráveis à fraude, pois muitos pacientes podem não estar em condições de seguir adequadamente o protocolo do estudo e, além disso, como algumas avaliações possuem caráter relativamente subjetivo, terceiros podem manipular os testes para permitir a inclusão ou permanência de participantes no ensaio.

Esses cinco centros de ensaios clínicos participaram de outros 59 ensaios clínicos sobre a doença de Alzheimer, envolvendo 46 medicamentos diferentes. Entre eles estão anticorpos já aprovados para o tratamento da doença, bem como a semaglutida (um agonista do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 – GLP-1) desenvolvida pela Novo Nordisk.

Inspetores da Food and Drug Administration (FDA) constataram que, com exceção da IMIC, todos os demais centros haviam cometido erros evidentes em um ou mais ensaios realizados. Em razão de trechos suprimidos e rasuras nos relatórios de inspeção, na maioria dos casos não foi possível determinar exatamente quais medicamentos estavam sendo avaliados. No entanto, três desses relatórios — incluindo o referente ao ensaio com semaglutida — apontavam a possível inclusão de participantes que não atendiam aos critérios de elegibilidade estabelecidos para o estudo.

As empresas Annovis Bio e BioVie também recorreram a diversos centros de pesquisa localizados na mesma região da Flórida, embora não exatamente aos mesmos utilizados pela T3D. Ambas afirmam que seus ensaios clínicos com candidatos a medicamentos para Alzheimer também não conseguiram demonstrar os benefícios esperados devido a problemas semelhantes. Em 2024, aproximadamente 40% dos dados dos voluntários que participaram de um estudo sobre o medicamento buntanetap, da Annovis, precisaram ser excluídos da análise dos resultados. Dentre os participantes, todos os recrutados nos centros da região de Miami não sofriam de Alzheimer, concluiu a empresa em uma análise posterior.

Cuong Do, diretor-executivo da BioVie, afirma que um ensaio clínico com o medicamento experimental NE3107, um composto desenvolvido para combater a inflamação que se acredita estar envolvida no desencadeamento da doença de Alzheimer, foi invalidado devido a dados suspeitos provenientes de 15 centros localizados no sul da Flórida. Muitos pacientes do grupo placebo apresentaram melhora cognitiva considerada impossível. A empresa também identificou casos em que exames de imagem cerebral haviam sido copiados e colados nos prontuários de diferentes pacientes, além de outras anomalias evidentes.

Não se sabe com que frequência fraudes ocorrem em ensaios clínicos administrados por CROs ou por esse tipo de centro local de pesquisa. Da mesma forma, denúncias de má conduta raramente resultam em processos judiciais federais ou na aplicação de sanções penais ou civis.

Fonte Original

  1. Piller, Charles, Alzheimer’s drug developers accuse clinical trial sites of faking data. T3D Therapeutics alleges that contract researchers delivered “medically impossible” results on its candidate drug. The Scientist, 7 de enero de 2026 https://www.science.org/content/article/alzheimer-s-drug-developers-accuse-clinical-trial-sites-faking-data
creado el 28 de Julio de 2026