Resumo
O jornalismo científico possui uma história ilustre de serviço à ciência e à sociedade, mas também enfrentou muitos desafios em sua missão. Diversas formas de comunicação científica e diferentes perfis de comunicadores surgiram ao longo do tempo. Esses desafios tornaram-se ainda maiores na interface entre o jornalismo científico e a advocacy em favor da ciência e sobre a ciência. O poder de promover benefícios, mas também de causar danos — não apenas à ciência, mas também à sociedade em geral — deve ser cuidadosamente compreendido.
A presente Perspectiva analisa os diferentes papéis que o jornalismo científico passou a desempenhar. Esses papéis incluem os tradicionais (disseminar, facilitar e defender a ciência), bem como funções mais recentes, nas quais o jornalismo científico e a advocacy podem assumir um papel mais ativo na formação dos rumos da ciência. Em situações extremas, o jornalismo científico e a defesa da ciência podem até exercer um poder tirânico, chegando ao ponto de aterrorizar determinados campos científicos. O jornalismo científico pode inclusive usurpar a ciência, impondo narrativas de forma antecipada, antes mesmo que evidências científicas sejam produzidas.
Nesses casos, jornalistas e defensores de determinadas causas passam a ter tanto a primeira quanto a última palavra sobre quais conhecimentos científicos são confiáveis. São propostas algumas formas de melhorar a situação atual. Entre elas estão: separar mais claramente o jornalismo/comunicação e a advocacy da atividade científica; dar prioridade à ciência em vez da opinião; aprimorar a responsabilização quanto à autoria e às contribuições, além de outros mecanismos de transparência e da documentação das fontes de informação; e promover e valorizar o cumprimento de padrões éticos.