Em 2024, um estudo investigou o risco de doença renal crônica em pacientes a tomar lítio, o “estabilizador de humor” padrão. Utilizando bases de dados de saúde islandesas que abrangem o período de 2008 a 2017, foi estabelecida uma coorte de adultos diagnosticados com perturbações de humor, para os quais estavam disponíveis medições de creatinina sérica [1].
Foram comparados 2.025 pacientes tratados com lítio a 1.173 pacientes que não tinham sido expostos ao lítio. A maioria dos pacientes eram mulheres, com uma idade média de 47 anos no final do acompanhamento, cuja duração média foi de cerca de 5 anos [1].
No grupo do lítio, 10% dos pacientes desenvolveram pelo menos doença renal crônica moderada, comparativamente a 3% no grupo não exposto ao lítio. Após considerar sexo, idade e comorbilidades, a razão de risco (hazard ratio [HR]) foi de 1,90; intervalo de confiança de 95% (IC95) 1,32-2,75. Este risco pareceu ser dependente da dose, inclusive quando as concentrações sanguíneas de lítio estavam dentro do intervalo terapêutico (0,5 a 0,8 mmol/l) (1,2). No subgrupo de pacientes com a concentração sanguínea média mais elevada de lítio (0,8 a 0,99 mmol/l), o risco foi 4 vezes superior ao dos controles (HR 4,31; IC95 2,66-6,99) [1].
O risco relativo de desenvolver doença renal crônica sob tratamento com lítio pareceu aumentar com a idade, a taxa de filtração glomerular (TFG) inicial reduzida, a diabetes e um antecedente de lesão renal aguda. Os dados analisados neste estudo não incluíram a exposição a outros fármacos que acarretam risco de insuficiência renal ou a possível ocorrência de desidratação [1].
A evolução da insuficiência renal após a descontinuação do lítio é variável [2,3]. Em alguns casos, observou-se regressão, enquanto noutros casos há uma deterioração contínua.
Uma equipa sueca estabeleceu uma coorte de 168 pacientes que foram acompanhados durante cerca de 5 anos, antes e depois de interromperem o tratamento com lítio. Destes, 35% tinham uma TFG inferior a 60 ml/min/1,73 m² no momento da interrupção do lítio (4). Após a descontinuação, a TFG destes 168 pacientes caiu, em média, 0,023 ml/min/1,73 m² por ano, comparativamente a uma queda de 1,58 ml/min/1,73 m² por ano antes da interrupção (p<0,0001). O abrandamento do declínio da TFG foi mais acentuado nos pacientes que apresentavam os valores de TFG mais baixos. Em 48 pacientes que reiniciaram o tratamento com lítio, observou-se novamente um declínio da TFG, semelhante ao observado durante o período de exposição anterior [4].
NA PRÁTICA. O risco de doença renal crônica associado à toma de lítio é aumentado na presença de outros fatores de risco para insuficiência renal. A descontinuação do lítio parece abrandar a progressão da insuficiência renal. É aconselhável estabelecer a dose eficaz mais baixa de lítio, monitorizar as concentrações sanguíneas de lítio e creatinina, e ter o cuidado de evitar outras causas de lesão renal aguda, particularmente a desidratação.
Traduzido de Rev Prescrire Agosto 2025 Volume 45 n° 502 • Página 589.
Referencias