O secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., prometeu repetidamente eliminar a influência da indústria sobre a FDA. No entanto, a administração Trump exerceu influência sobre as decisões tomadas pela agência, levando a indústria farmacêutica a buscar tirar proveito dessa situação.
Daniel Payne e Lizzy Lawrence entrevistaram 10 lobistas e funcionários do governo e escreveram um artigo sobre as estratégias da indústria para influenciar a FDA, resumido a seguir [1].
Michael Abrams, da empresa Numerof and Associates, que assessora empresas farmacêuticas em questões regulatórias, afirmou: “A natureza da relação entre as empresas e a administração agora é radicalmente diferente”. Segundo Abrams, o novo sistema transformou, em prática comum, discussões sobre decisões da FDA que antes eram consideradas “heréticas”.
A pressão das empresas para que a FDA tome decisões favoráveis não é novidade. A Biogen, por exemplo, pressionou publicamente altos funcionários da FDA para aprovar seu controverso medicamento contra a doença de Alzheimer [2]. Entretanto, esse tipo de atuação tornou-se cada vez mais frequente e explícito. Segundo quatro pessoas envolvidas nessas estratégias, as empresas passaram a atuar também junto à Casa Branca e aos altos dirigentes do Departamento de Saúde, tentando convencê-los de que determinadas decisões regulatórias ou o sucesso de uma empresa poderiam ser apresentados como uma vitória política para a administração Trump.
A mudança de posição da FDA em relação ao pedido de autorização de comercialização da nova vacina contra a gripe da Moderna parece reforçar essa estratégia, segundo um dos lobistas. No início de fevereiro, dirigentes da FDA informaram à Moderna que não analisariam o pedido [3]. Posteriormente, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o caso, os lobistas da empresa recorreram à Casa Branca para contestar a decisão. Em seguida, a FDA voltou atrás e anunciou que analisaria a vacina [4]. Posteriormente, Politico e CNN informaram que a reversão ocorreu após intervenção da Casa Branca, embora um porta-voz da presidência tenha negado qualquer participação.
Essa abordagem mais centralizada também se tornou evidente em um novo programa de revisão acelerada de medicamentos [5]. A Casa Branca passou a utilizar esse programa para beneficiar empresas alinhadas com seus objetivos políticos, como a redução dos preços dos medicamentos. Um exemplo foi a EMD Serono, que recebeu a oferta de uma revisão acelerada de um medicamento e a eliminação de tarifas de importação em troca da redução dos preços de seus tratamentos para fertilidade [6].
A Eli Lilly também recorreu às suas conexões com a Casa Branca para solicitar tratamento preferencial por parte da FDA. A empresa concordou em reduzir os preços de seus populares medicamentos para perda de peso e, em troca, recebeu três vouchers para revisões aceleradas.
Durante as reuniões da FDA relacionadas à avaliação de seu medicamento GLP-1 injetável multidose, que não havia recebido um voucher para revisão acelerada, representantes da Lilly mencionaram repetidamente o acordo sobre os preços dos medicamentos como forma de pressionar pela aceleração da decisão regulatória, segundo relataram quatro funcionários da FDA. De acordo com esses funcionários, o gabinete do comissário da agência também consultou diversas vezes o andamento da decisão. A FDA acabou aprovando os injetores multidose, denominados KwikPen, em janeiro de 2026 [7].
Os lobistas envolvidos nas iniciativas para influenciar a FDA afirmam ter observado uma mudança significativa ao longo do último ano. Questões regulatórias que antes eram predominantemente técnicas, concentradas no desenho de ensaios clínicos e em aspectos regulatórios, passaram a incorporar uma estratégia política baseada na aproximação com a Casa Branca e com altos dirigentes do Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Um lobista afirmou que, anteriormente, evitava-se interferir nas decisões da FDA, mas que “houve uma mudança… Agora as conversas são: ‘Podemos influenciar o processo?’. Nunca antes eu havia tido esse tipo de conversa”. Outro acrescentou: “Grande parte do trabalho da FDA é impulsionado pela Casa Branca”.
A abordagem centralizadora da administração Trump na formulação de políticas públicas não é segredo, assim como a disposição da Casa Branca em firmar acordos confidenciais com a indústria.
O problema é que essas negociações políticas realizadas a portas fechadas podem influenciar a forma como os reguladores decidem quais medicamentos são autorizados a entrar no mercado norte-americano, comprometendo a percepção de que a FDA aprova medicamentos exclusivamente com base em critérios científicos de segurança e eficácia. Como afirmou Sarah Despres, ex-conselheira sênior do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), responsável pela supervisão da FDA durante a administração Biden: “Se você é paciente, quer ter certeza de que o medicamento foi aprovado com base nas melhores evidências disponíveis, e não porque o diretor-executivo da empresa é amigo de alguém influente ou fez doações para campanhas políticas.”
As atividades de lobby também se estendem aos legisladores federais. As empresas pressionam parlamentares para que entrem em contato com a FDA, na esperança de que levem determinadas questões ao conhecimento de Trump ou de seus principais assessores. Um funcionário da FDA informou à STAT que as consultas do Congresso relacionadas a pedidos específicos de aprovação de medicamentos aumentaram sob a liderança do comissário da FDA, Marty Makary.
Segundo a Bloomberg [8], vários parlamentares foram convidados para uma reunião com funcionários da FDA para discutir a ampliação da aprovação de um medicamento produzido pela ImmunityBio, empresa pertencente ao bilionário Patrick Soon-Shiong. Soon-Shiong vinha pressionando a Casa Branca de Trump para obter a ampliação da autorização de seu medicamento contra o câncer [9].
Em 2025, três empresas de lobby próximas à Casa Branca arrecadaram, em conjunto, cerca de US$ 11,7 milhões provenientes de companhias farmacêuticas, em comparação com US$ 2,2 milhões em 2024 [10].
O gasto total da indústria farmacêutica com lobby aumentou de US$ 391 milhões em 2024 para US$ 452 milhões em 2025, representando o maior crescimento anual já registrado, segundo dados da OpenSecrets. Além disso, entidades representativas do setor investiram somas expressivas em campanhas de comunicação voltadas especificamente para a administração atual. A PhRMA, por exemplo, destinou um investimento de sete dígitos a uma campanha destinada a promover a liderança dos Estados Unidos na inovação biofarmacêutica.
Na avaliação dos lobistas, o período de instabilidade vivido pela agência criou uma nova oportunidade para exercer pressão “de cima para baixo” sobre a instituição, uma vez que o poder dentro das agências de saúde passou a concentrar-se muito mais em autoridades nomeadas por motivos políticos, que geralmente procuram atender às expectativas da Casa Branca.
No interior da FDA, especialistas com longa trajetória foram afastados de seus cargos [11] ou tiveram suas decisões revertidas em questões de grande relevância [12]. Alguns funcionários chegaram a ser demitidos e posteriormente readmitidos [13]. Enquanto isso, cientistas de carreira manifestaram repetidamente sua preocupação [14] com aquilo que consideram um dano duradouro a um dos principais pilares do sistema de saúde dos Estados Unidos [15]. Em resposta, os dirigentes da FDA procuraram minimizar as preocupações [16] relacionadas à influência política exercida sobre a agência [17].
Em novembro, um grande grupo de líderes da indústria enviou uma carta aberta a Makary manifestando preocupação com a instabilidade da agência e com a possibilidade de que ela deixasse de desempenhar suas funções de forma eficaz [18].
Os lobistas enfatizaram que as empresas não buscavam favorecer produtos de qualidade inferior. Segundo eles, o objetivo era fortalecer pedidos de aprovação que, em sua avaliação, poderiam não receber uma análise justa.
Essa maior aproximação entre governo e indústria, apesar das promessas de Trump e de Kennedy de “drenar o pântano”, foi recebida positivamente por alguns integrantes da administração. Mehmet Oz, administrador dos Centros de Serviços de Medicare e Medicaid, afirmou em reunião com dirigentes da PhRMA que aproximar líderes da indústria e do governo constituía a “arma secreta” da administração, acrescentando que as conversas privadas com executivos farmacêuticos eram benéficas tanto para o governo quanto para a indústria.
Stephen Ubl, diretor-executivo da PhRMA, declarou aos jornalistas que as preocupações da indústria em relação à FDA permaneciam, embora tenha afirmado que a entidade não modificou sua estratégia de relacionamento com a agência nem com outros atores governamentais, incluindo o Congresso e a Casa Branca.
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