Resenha do livro: Joanna Moncrieff. Chemically imbalanced: When marketing masquerades as science. Flint Books; 2024. Páginas: 336, INR 1545 (capa comum). ISBN: 9780750999336
Quando meu marido Woody morreu por suicídio em 2003, apenas cinco semanas após lhe terem prescrito Zoloft (Sertralina) para insônia, todo o meu mundo desmoronou. Eu não era médica nem especialista em políticas públicas — eu era sua esposa. Mas aquele momento me lançou em uma luta que eu nunca pedi: uma jornada de duas décadas através de litígios, advocacia em saúde pública e os profundamente falhos sistemas de supervisão da segurança de medicamentos. Minha formação profissional em publicidade e marketing me deu uma perspectiva diferente, mostrando como narrativas são construídas, repetidas e vendidas ao público. A teoria do desequilíbrio químico não era apenas uma ideia médica; era uma estratégia de marketing, repetida até se tornar “verdade”.
Quimicamente Desequilibrado, de Joanna Moncrieff, é ao mesmo tempo validante e perturbador. Moncrieff, uma psiquiatra respeitada e professora do University College London, expõe meticulosamente como a hipótese da serotonina na depressão ganhou destaque sem um suporte científico robusto. Sua revisão guarda-chuva de 2022, publicada na revista Molecular Psychiatry, concluiu que não havia evidência consistente ligando baixos níveis de serotonina à depressão [1]. Apesar das críticas, ela reforça essa posição aqui, ilustrando claramente como a narrativa do desequilíbrio químico se consolidou na indústria da saúde mental por meio de marketing estratégico, e não de ciência definitiva. Ela aponta, por exemplo, para a analogia frequentemente repetida de que a depressão é “como diabetes” e os antidepressivos são “como insulina” — uma comparação simples e memorável que teve origem em campanhas de relações públicas farmacêuticas, não em evidência revisada por pares.
Moncrieff recorre a uma ampla gama de fontes — desde reanálises de ensaios clínicos marcantes até materiais de marketing, documentos regulatórios e relatos de pacientes — entrelaçando-os em uma narrativa tão acessível quanto inquietante. Ela é mais incisiva ao destrinchar como escolhas sutis de linguagem, repetição e relato seletivo de dados moldaram não apenas a opinião pública, mas também diretrizes clínicas. Ao mostrar como alegações de marketing foram perfeitamente integradas ao ensino médico, folhetos para pacientes e mensagens de saúde pública, ela demonstra a facilidade com que “verdades” médicas podem ser fabricadas e defendidas muito tempo depois de as evidências colapsarem. Esse nível de detalhe faz do livro não apenas uma história de uma teoria falha, mas uma denúncia do mecanismo que a sustenta.
Como alguém que analisou documentos internos farmacêuticos durante meu processo contra a Pfizer, vi em primeira mão as mesmas dinâmicas que Moncrieff descreve. Ensaios clínicos frequentemente mostravam benefício mínimo em relação ao placebo, com riscos significativos como ideação suicida ou sintomas de abstinência, deliberadamente minimizados ou ocultados. O público, no entanto, recebia uma mensagem diferente: a depressão era uma simples deficiência química solucionável com um comprimido. Moncrieff revisita casos notórios como o Estudo 329 da GlaxoSmithKline, no qual os resultados de ensaios com Paxil (Paroxetina) em adolescentes foram manipulados para esconder o aumento do risco de suicídio e a falta de eficácia [2]. Trata-se de um exemplo que ilustra uma má prática sistêmica, não isolada.
Além da crítica científica, Moncrieff aborda a mudança cultural em direção à medicalização de emoções humanas normais como luto, ansiedade e tristeza, transformando-as em “transtornos” que requerem soluções farmacêuticas. Até mesmo meu médico tentou me oferecer um antidepressivo para o luto após a morte do meu marido. Essa “medicalização progressiva” resultou em diagnósticos em ascensão sem melhora correspondente nos desfechos. Importante destacar que Moncrieff não é contra medicamentos; ela defende transparência, consentimento informado e uma compreensão mais nuançada dos efeitos dos fármacos psiquiátricos, pedindo que clínicos e reguladores priorizem o bem-estar do paciente em vez de narrativas de marketing.
Para mim, ler Quimicamente Desequilibrado foi tanto uma confirmação quanto um lembrete de por que continuo esse trabalho mais de vinte anos após a morte de Woody. O livro deixa claro que o que está em jogo não é apenas a precisão acadêmica, mas as realidades vividas por milhões de pessoas que recebem prescrições de medicamentos psiquiátricos baseadas em narrativas incompletas ou enganosas. Estamos vendo isso se desenrolar em tempo real hoje, à medida que esses argumentos são defendidos e repetidos por políticos, consolidando ainda mais mitos que deveriam ter sido desmantelados há muito tempo. Ele nos desafia a fazer perguntas mais difíceis aos nossos sistemas de saúde, aos nossos reguladores e a nós mesmos, e a imaginar um futuro em que o cuidado seja fundamentado na honestidade, na humildade e em uma conexão humana genuína. Essa é uma conversa que já deveria ter acontecido há muito tempo.
Referências: